É errado exportar lixo para outros países?

É errado exportar lixo para outros países?
Contêineres no porto de Southampton, Reino Unido (Foto: Matt Cardy/Getty Images)                              

Vivemos em um mundo globalizado, onde todo o tipo de material é comercializado entre os países. Todo mesmo: nem o lixo escapa. Mas é correto que países ricos exportem os resíduos sólidos, geralmente para países mais pobres? E como enfrentar um imenso mercado negro da venda de lixo, que segundo estimativas movimenta bilhões por ano?

ÉPOCA conversou com dois especialistas no assunto. O britânico Jeff Cooper e o dinamarquês Björn Appelqvist fizeram um estudo sobre tráfico de resíduos para a International Solid Waste Association (ISWA), organização internacional sobre manejo de resíduos sólidos. Eles estão no Brasil para o Congresso Mundial de Resíduos Sólidos ISWA 2014, organizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), que ocorre nesta semana em São Paulo. Segundo os especialistas, os países pobres podem se beneficiar do comércio de resíduos, desde que ele seja feito dentro das regras, evitando contaminação ao meio ambiente e à saúde da população.

ÉPOCA – Exportar lixo é uma atividade ilegal?

Björn Appelqvist - O termo ‘tráfico de resíduos’ geralmente se refere a uma atividade ilegal. Mas temos que reconhecer que vivemos em um mundo globalizado, com muitas trocas de materiais e de recursos. Isso acontece também com lixo e com matéria-prima secundária. A maior parte desse comércio é boa. Esse mercado permite que países consigam materiais que antes não tinham. A má notícia é que, como todo comércio, há uma tendência de alguns grupos buscarem preços mais baratos e lucros mais altos, o que acaba gerando uma atividade ilegal.

Jeff Cooper – Um ponto que é importante ressaltar é que, além dos resíduos sólidos, há muito comércio de produtos que estão fora de linha em determinados países. Pense nos carros, por exemplo. Pode ser que um carro esteja em pleno funcionamento, mas tenha perdido o valor que tinha no país de origem porque ninguém mais quer comprá-lo. Esses carros são transportados para outra parte do mundo, onde ainda têm valor. Não é algo que aconteça no Brasil, mas acontece por exemplo na Europa, onde carros são transportados da Alemanha para países do sul da Europa ou do oeste da África. Isso é bem comum. O plástico é outro exemplo. Pelas metas de reciclagem da Europa, o plástico pode ser reprocessado no exterior. Isso significa que China, Índia, ou outros países estão reprocessando o plástico europeu. Dessa forma, eles têm acesso a um plástico muito mais barato do que se produzissem novos materiais a partir do petróleo, o que é bom. Um dos grandes problemas é a qualidade do plástico que está sendo exportado. Alguns operadores se aproveitam de brechas e exportam material com qualidade muito baixa.

ÉPOCA – Quer dizer que nem sempre o que chamamos de tráfico de resíduos significa tráfico de lixo, propriamente dito?

Jeff - Depende da sua perspectiva. São produtos que podem ser considerados como lixo nos locais onde eles são produzidos, mas podem não ser nos países importadores, porque ainda têm muito valor no material. A distinção é mais clara no caso dos materiais químicos. Se você exporta materiais químicos perigosos, da Europa para outro país, então é provavelmente tráfico de resíduos, uma atividade ilegal.

ÉPOCA – O problema não é o comércio dos resíduos, mas a forma como regular esse comércio?

Björn - Claro, se todos os países tivessem boa regulação, então não haveria nenhum problema. Quando os países europeus exportam materiais para países de fora da OCDE, o que pode acontecer é que os importadores não precisem seguir os mesmos padrões e legislação. Eles podem ter padrões mais baixos de segurança no transporte, saúde das pessoas envolvidas e proteção ao meio ambiente. O resultado é que esse comércio causa dano. Dano às pessoas que trabalham com esses materiais, dano para o meio ambiente. A solução de longo prazo é fortalecer a legislação dos países importadores, o que não é fácil. No curto prazo, o que se tem feito é impedir a exportação para países que não estão preparados para receber esse material. E aí entra a atividade criminal. Como é barato exportar para esses países, como é lucrativo, cria-se uma indústria criminal. É uma indústria que, estima-se, movimente entre US$ 10 e12 bilhões por ano. É o mesmo valor de toda o manejo de resíduos da Holanda. Ou seja, essa mercado negro movimenta o valor do manejo de resíduos de um país inteiro.

ÉPOCA – Quem forma essa indústria? São países, são empresas?

Björn - Primeiro vamos fazer uma distinção. Alguns operadores não são totalmente conscientes de que estão irregulares. Mas a maior parte é conscientemente uma ação criminosa. São grupos que, em geral, se formam nos países que importam o lixo e recrutam imigrantes que vivem na Europa. Principalmente, países da África ocidental, Índia e Indonésia. A China também, mas as autoridades chinesas estão aumentando a regulação. O tráfico de resíduos é muito dinâmico. Se você não pode exportar para Hong Kong, você encontra compradores em Cingapura. Não há nenhum tipo de organização que sabe se adaptar tão bem quanto as organizações criminosas.

Jeff - Há também um mercado para resíduos sólidos dentro da União Europeia, e há tráfico de resíduos entre esses países. Alguns países têm impostos muito altos para aterros sanitários, como o Reino Unido e Dinamarca, e por isso há a tentação de mover esse resíduo para outros países. Nós vemos que lixo está sendo enviado para países como Hungria ou Romênia e está sendo despejado lá.

ÉPOCA – Há casos desse comércio ilegal no Brasil?

Jeff - Houve um caso recente de plásticos para reciclagem que foram enviados do Reino Unido para o Brasil, e então descobriu-se que era um material contaminado. Mas eu creio que, em geral, a quantidade de resíduos que está sendo enviada para a América Latina é baixa comparada a outras regiões. Em parte por causa dos controles de regulação, mas também por uma questão econômica.

Björn - Um dos principais fatores nesse comércio de lixo é transporte barato. Acontece principalmente com países que têm grandes indústrias exportadoras e pequena importação. É o caso da China e da África ocidental. Esses países enviam os produtos para a Europa em contêineres. Quando os navios voltam, eles usam os contêineres que deveriam voltar vazios para traficar resíduos.

ÉPOCA – O que acontece com esse lixo quando ele chega ao país importador?

Björn - O lixo perigoso, que é barato, é simplesmente despejado em lixões. São materiais que não se sabe o que fazer com eles, ou que é muito caro de reprocessar. Esse tipo de resíduo pode contaminar e causar dano à saúde, e está sendo simplesmente despejado, principalmente em países do oeste da África. Há o caso das matérias-primas secundárias, como eletrônicos ou plástico. Países importam esses resíduos porque podem desmontar os aparelhos para buscar a matéria-prima, como o cobre de fios. Isso é feito de forma bruta, e o restante é descartado, o que também pode resultar em problemas para o meio ambiente e para a saúde das pessoas.

ÉPOCA – Exportar resíduos, em geral, soa como um negócio bom para os países ricos, que se livram do lixo, mas ruim para os países pobres. Os países que estão importando lixo conseguem lucrar com esse comércio?

Jeff - Eles podem se beneficiar sim, contanto que o material seja de boa qualidade, que não seja um material contaminado. E que haja forte controle e regulação para evitar contaminação.

Björn - O comércio de matéria-prima secundária pode ser um grande negócio. Essa é uma discussão que está acontecendo na Europa, por uma questão estratégica. São recursos que podem ser valiosos, e a Europa está abrindo mão deles de graça.

Fonte: epoca.globo.com

Responda